Gatos
Sinésio Pires Ferreira
Irmãs. Sempre moraram juntas e nunca se casaram. Uma, surda, vive isolada em si mesma, tão diferente da pessoa que conheci. A outra, que já desistiu da aparência de outrora, ainda acompanha o cotidiano, mas conta interminavelmente a mesma história: a casa vizinha, abandonada pelo proprietário há mais de 20 anos. Hoje, quase uma ruína, invadida por gatos que a transformaram em seu criadouro. “Ao menos não tem ratos”, repete a mesma conclusão da mesma história.
A casa delas perdeu o viço: poltronas puídas, cortinas empoeiradas e ruças. Tapetes e quadros já não há, salvo algumas estampas de santos, emboloradas. Trincas nas paredes, batentes descascados, talvez invadidos por cupins. Não me atrevi a ir aos outros cômodos.
Ainda me lembro. A grande curiosidade era ver aberto o étagère da sala de jantar. Além da coleção de bibelôs, guardava supostos tesouros, relíquias de um passado afortunado. Porcelanas, cristais, pratarias. Parte era usada em ocasiões especiais e, como só as visitava nessas ocasiões, associava aquela casa a luxo e refinamento.
Ofereceram-me um café. A xícara branca, de porcelana grosseira, tinha uma pequena trinca, uma linha fina e escura. Não traçava apenas uma simples reta, mas complicada combinação de volutas que se entrelaçavam, formando fugazes figuras. Caminhos, rios, vales e serras que se atropelavam. Árvores e palmeiras, num momento viçosas e, imediatamente, desfolhadas e mortas. Pássaros passavam e sumiam entre nuvens a se desfazer no branco da xícara.
“Os gatos. Não fossem eles, não sei o que seria de nós” – ainda ouvi quando saí de lá, acendendo um cigarro.
Sinésio Pires Ferreira
Irmãs. Sempre moraram juntas e nunca se casaram. Uma, surda, vive isolada em si mesma, tão diferente da pessoa que conheci. A outra, que já desistiu da aparência de outrora, ainda acompanha o cotidiano, mas conta interminavelmente a mesma história: a casa vizinha, abandonada pelo proprietário há mais de 20 anos. Hoje, quase uma ruína, invadida por gatos que a transformaram em seu criadouro. “Ao menos não tem ratos”, repete a mesma conclusão da mesma história.
A casa delas perdeu o viço: poltronas puídas, cortinas empoeiradas e ruças. Tapetes e quadros já não há, salvo algumas estampas de santos, emboloradas. Trincas nas paredes, batentes descascados, talvez invadidos por cupins. Não me atrevi a ir aos outros cômodos.
Ainda me lembro. A grande curiosidade era ver aberto o étagère da sala de jantar. Além da coleção de bibelôs, guardava supostos tesouros, relíquias de um passado afortunado. Porcelanas, cristais, pratarias. Parte era usada em ocasiões especiais e, como só as visitava nessas ocasiões, associava aquela casa a luxo e refinamento.
Ofereceram-me um café. A xícara branca, de porcelana grosseira, tinha uma pequena trinca, uma linha fina e escura. Não traçava apenas uma simples reta, mas complicada combinação de volutas que se entrelaçavam, formando fugazes figuras. Caminhos, rios, vales e serras que se atropelavam. Árvores e palmeiras, num momento viçosas e, imediatamente, desfolhadas e mortas. Pássaros passavam e sumiam entre nuvens a se desfazer no branco da xícara.
“Os gatos. Não fossem eles, não sei o que seria de nós” – ainda ouvi quando saí de lá, acendendo um cigarro.
Eles conhecem as mulheres
Depois de muito tempo o encontrei. Continuava a percorrer as ruas sujas do centro, até aquela boate. Entramos. Já conhecia o porteiro, a quem cumprimentou com um meneio da cabeça. Apertou os olhos para se acostumar à penumbra e respirou fundo, antecipando-se ao cheiro do lugar, sem janelas ou ventilação. Sentou-se à mesa de frente para o palco e pediu o de sempre à garçonete.
As outras mesas esparsamente ocupadas por homens escondidos na penumbra. Alguns conversavam com mulheres cuja maquilagem não disfarçava o ar cansado. Outros olhavam a esmo, esperando.
Gostava de ouvir as conversas, sobretudo a da mulher que esperava há anos por seu amor eterno. Mudavam-se os dias, as mesas e as pessoas, mas essa história sempre se repetia. Ele ria baixinho.
– Mas você é uma idiota mesmo, achando que esse cara vai voltar. Ele deve estar em casa agora, esperando a mulherzinha preparar o jantar e nem se lembra que você existe.
– Pode até ser, mas alguma coisa tem se não ele não me mandava cartão. E o jeito que ele me tratava... Sempre que vinha aqui me procurava. Ficava falando baixinho aquelas besteiras que nem eu fosse sua namorada. Tinha que ficar pertinho para ouvir e ele me lambia a orelha – lingüelha, ele falava e eu adorava. Não era que nem esses caras aí, que só sabem falar quantocusta.
No palco, um sujeito anunciou a incrível Marlene Dietrich: um velho travesti oxigenado dublando Lili Marlene.
Mas quem ele esperava era a Suzette. Suzette não, a Britney. Uma lourinha linda, magrinha, com olhos azuis. Dançarina de primeira: à medida que a música avança, vai tirando a roupa até acabar, atrás do biombo.
Ele jura que era da Barbearia Seleta. Sempre achou ridículo homem pintar unha, mas com a Suzette lá, suas unhas brilhavam e ele não tirava mais as mãos do bolso. Até o apelidaram no trabalho de Mano-Bolso. Era corretíssima, nunca aceitava gorjeta nem refrigerante. Ele, tímido, não achava jeito de falar com ela. Só sonhava com dias calmos e noites ardentes. Um dia, dois, três dias e a Suzete não apareceu. Antes de ele achar as palavras. Perguntou ao dono da barbearia.
– Sei lá. São todas assim. A gente dá a maior força para elas e é só aparecer um cara com voz melosa que somem para depois voltarem, desapontadas, pedindo de novo o emprego. A essa altura já deve ter sido abandonada. Alguém me disse que acha que viu ela dançando numa espelunca da Rua Aurora, Augusta, ou qualquer coisa assim.
Lá foi ele em busca da Suzete. Andou como um bêbado por lugares suspeitos. Aí viu a Britney. Não adiantava falar que a Suzete era morena, gordinha, de olhos castanhos. Ele tem certeza.
– Você fala porque não conhece as mulheres. Você só vê o corpo, o cabelo, a pele. Isso, elas mudam toda hora. Eu não, eu vejo por dentro. Eu conheço as mulheres.
Continua indo ali todos os dias – menos segunda-feira, folga dela – esperando a menina aparecer e desaparecer por trás do biombo enquanto rói as unhas, escolhe cuidadosamente as palavras certas e sonha com dias e noites. Já desisti de conversar sobre isso. Ainda mais porque me disseram que a Suzete entrou na faculdade.
Depois de muito tempo o encontrei. Continuava a percorrer as ruas sujas do centro, até aquela boate. Entramos. Já conhecia o porteiro, a quem cumprimentou com um meneio da cabeça. Apertou os olhos para se acostumar à penumbra e respirou fundo, antecipando-se ao cheiro do lugar, sem janelas ou ventilação. Sentou-se à mesa de frente para o palco e pediu o de sempre à garçonete.
As outras mesas esparsamente ocupadas por homens escondidos na penumbra. Alguns conversavam com mulheres cuja maquilagem não disfarçava o ar cansado. Outros olhavam a esmo, esperando.
Gostava de ouvir as conversas, sobretudo a da mulher que esperava há anos por seu amor eterno. Mudavam-se os dias, as mesas e as pessoas, mas essa história sempre se repetia. Ele ria baixinho.
– Mas você é uma idiota mesmo, achando que esse cara vai voltar. Ele deve estar em casa agora, esperando a mulherzinha preparar o jantar e nem se lembra que você existe.
– Pode até ser, mas alguma coisa tem se não ele não me mandava cartão. E o jeito que ele me tratava... Sempre que vinha aqui me procurava. Ficava falando baixinho aquelas besteiras que nem eu fosse sua namorada. Tinha que ficar pertinho para ouvir e ele me lambia a orelha – lingüelha, ele falava e eu adorava. Não era que nem esses caras aí, que só sabem falar quantocusta.
No palco, um sujeito anunciou a incrível Marlene Dietrich: um velho travesti oxigenado dublando Lili Marlene.
Mas quem ele esperava era a Suzette. Suzette não, a Britney. Uma lourinha linda, magrinha, com olhos azuis. Dançarina de primeira: à medida que a música avança, vai tirando a roupa até acabar, atrás do biombo.
Ele jura que era da Barbearia Seleta. Sempre achou ridículo homem pintar unha, mas com a Suzette lá, suas unhas brilhavam e ele não tirava mais as mãos do bolso. Até o apelidaram no trabalho de Mano-Bolso. Era corretíssima, nunca aceitava gorjeta nem refrigerante. Ele, tímido, não achava jeito de falar com ela. Só sonhava com dias calmos e noites ardentes. Um dia, dois, três dias e a Suzete não apareceu. Antes de ele achar as palavras. Perguntou ao dono da barbearia.
– Sei lá. São todas assim. A gente dá a maior força para elas e é só aparecer um cara com voz melosa que somem para depois voltarem, desapontadas, pedindo de novo o emprego. A essa altura já deve ter sido abandonada. Alguém me disse que acha que viu ela dançando numa espelunca da Rua Aurora, Augusta, ou qualquer coisa assim.
Lá foi ele em busca da Suzete. Andou como um bêbado por lugares suspeitos. Aí viu a Britney. Não adiantava falar que a Suzete era morena, gordinha, de olhos castanhos. Ele tem certeza.
– Você fala porque não conhece as mulheres. Você só vê o corpo, o cabelo, a pele. Isso, elas mudam toda hora. Eu não, eu vejo por dentro. Eu conheço as mulheres.
Continua indo ali todos os dias – menos segunda-feira, folga dela – esperando a menina aparecer e desaparecer por trás do biombo enquanto rói as unhas, escolhe cuidadosamente as palavras certas e sonha com dias e noites. Já desisti de conversar sobre isso. Ainda mais porque me disseram que a Suzete entrou na faculdade.
Mozart, nunca mais!
Sinésio P. Ferreira
A despeito da aparente aridez dessa imagem, imagino que sua visão remeta a tantas lembranças ou reflexões quantas forem as pessoas que vierem a se deparar com ela. Eu, por exemplo, não consigo deixar de pensar na inconciliável disjuntiva entre os limites do ser humano e na finitude da vida, como se verá adiante. Já Érico Veríssimo, em situação semelhante, teve reação oposta: lembrou-se de sua vida inteira, como um elo de uma cadeia familiar infinita. Reações tão antagônicas podem explicar por que ele é um autor superlativo enquanto eu não passo de um, digamos, ditongo.
Entre esses extremos, a foto sugere infinitas possibilidades de percurso. Alguém que goste de música, por exemplo, recordará os loucos primeiros compassos da Rhapsody in Blue e, talvez, seus próprios loucos primeiros compassos. Já os devaneios de minha mãe e de suas amigas devem levá-las ao luar de Coromandel e a sentir saudades de Matão ou de qualquer luar de qualquer pequena cidade do Brasil. Outro, um pouco mais ousado do que elas, chorando baixinho, rememorará certas noites cariocas...
Sinésio P. Ferreira
A despeito da aparente aridez dessa imagem, imagino que sua visão remeta a tantas lembranças ou reflexões quantas forem as pessoas que vierem a se deparar com ela. Eu, por exemplo, não consigo deixar de pensar na inconciliável disjuntiva entre os limites do ser humano e na finitude da vida, como se verá adiante. Já Érico Veríssimo, em situação semelhante, teve reação oposta: lembrou-se de sua vida inteira, como um elo de uma cadeia familiar infinita. Reações tão antagônicas podem explicar por que ele é um autor superlativo enquanto eu não passo de um, digamos, ditongo.Entre esses extremos, a foto sugere infinitas possibilidades de percurso. Alguém que goste de música, por exemplo, recordará os loucos primeiros compassos da Rhapsody in Blue e, talvez, seus próprios loucos primeiros compassos. Já os devaneios de minha mãe e de suas amigas devem levá-las ao luar de Coromandel e a sentir saudades de Matão ou de qualquer luar de qualquer pequena cidade do Brasil. Outro, um pouco mais ousado do que elas, chorando baixinho, rememorará certas noites cariocas...

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