BANQUETE NA SELVA
A velha senhora era a parisiense padrão! Aos gritos negava-lhe servir um prato, qualquer coisa para comer. O longo treino do viver rendeu-lhe uma paciência sem limite, por isso permaneceu decidido em sua determinação. Queria e precisava comer ali e agora.
Era hábito de a velha senhora preparar pratos somente sob encomenda. A falta de condições aliada à idade dificultava o preparo de opções saborosas.
Os turnos de trabalho tinham início bem cedo, naqueles horários nos quais ainda muitos dormiam. Com um resto de sono, tomou o carro para o trabalho. O motorista lhe pede para passar na feira para deixar a lista das compras solicitadas pelas empregadas da casa.
Ali, naquele país da África, era costume comer animais os mais variados e inusitados. Macacos eram considerados iguarias finas, pois sua caça era proibida e quando apareciam à venda eram considerados verdadeiros banquetes. Já havia visto jacarés serem apreciados como carne de churrasco gaucho, à moda antiga. Tartarugas eram freqüentes até a chegada do novo chefe. Veados eram comidos à francesa ou com pompa e circunstância, como diria Elgar se convidado para o ágape.
Sua estada em África era como um refúgio. Seu país o banira, sua família o queria longe pensando em sua sobrevivência física. Aquele emprego caiu como uma luva, frase repetida freqüentemente, entre todos os familiares e amigos. Sobreviver, era a palavra adequada naquele momento, por isso a busca da calma, da paciência para enfrentar a terrível senhora.
A justificativa para o chegar repentino solicitando o almoço foi enfático o suficiente para abrandar o calor da discussão formada. Tinha visto, pela manhã, ao passar pela feira aquele garoto segurando nos polegares dois pequenos sagüis mortos e a venda. Onze horas, regressando a casa, ouve as empregadas comentarem alegremente: “On vá mangé de la viande de mongo”, repetiam a todo instante. O almoço do dia marcaria a história!
Saiu do banho refrescante naquela temperatura de 38 ºC diretamente para a Cafétéria de la Chouette onde reinava Mme. du Boise. Conseguiu o almoço mais saboroso de toda sua vida até então, um simples omelette.
Guy Constance
Bata/GE/1974
A velha senhora era a parisiense padrão! Aos gritos negava-lhe servir um prato, qualquer coisa para comer. O longo treino do viver rendeu-lhe uma paciência sem limite, por isso permaneceu decidido em sua determinação. Queria e precisava comer ali e agora.
Era hábito de a velha senhora preparar pratos somente sob encomenda. A falta de condições aliada à idade dificultava o preparo de opções saborosas.
Os turnos de trabalho tinham início bem cedo, naqueles horários nos quais ainda muitos dormiam. Com um resto de sono, tomou o carro para o trabalho. O motorista lhe pede para passar na feira para deixar a lista das compras solicitadas pelas empregadas da casa.
Ali, naquele país da África, era costume comer animais os mais variados e inusitados. Macacos eram considerados iguarias finas, pois sua caça era proibida e quando apareciam à venda eram considerados verdadeiros banquetes. Já havia visto jacarés serem apreciados como carne de churrasco gaucho, à moda antiga. Tartarugas eram freqüentes até a chegada do novo chefe. Veados eram comidos à francesa ou com pompa e circunstância, como diria Elgar se convidado para o ágape.
Sua estada em África era como um refúgio. Seu país o banira, sua família o queria longe pensando em sua sobrevivência física. Aquele emprego caiu como uma luva, frase repetida freqüentemente, entre todos os familiares e amigos. Sobreviver, era a palavra adequada naquele momento, por isso a busca da calma, da paciência para enfrentar a terrível senhora.
A justificativa para o chegar repentino solicitando o almoço foi enfático o suficiente para abrandar o calor da discussão formada. Tinha visto, pela manhã, ao passar pela feira aquele garoto segurando nos polegares dois pequenos sagüis mortos e a venda. Onze horas, regressando a casa, ouve as empregadas comentarem alegremente: “On vá mangé de la viande de mongo”, repetiam a todo instante. O almoço do dia marcaria a história!
Saiu do banho refrescante naquela temperatura de 38 ºC diretamente para a Cafétéria de la Chouette onde reinava Mme. du Boise. Conseguiu o almoço mais saboroso de toda sua vida até então, um simples omelette.
Guy Constance
Bata/GE/1974
“. . . ASILO DE INFORTÚNIOS.”[1]
Para Débora, de quem não aceitei a partida, mas que
sempre me faz lembrar O homem do braço de ouro
(Frank Sinatra e Kim Novak)
e Haxixe (Walter Benjamim)
Estavam em férias. Divertia-se com uma querida amiga que acedeu a seu convite para passear uns dias pela Grécia para onde ele queria voltar. O calor era intenso. Passeios só eram possíveis depois das cinco da tarde. No quarto de hotel, ele lia e ela queimava seu bagulhinho. Especialista em teoria literária tirava proveito dos rudimentos que ele conhecia para discutir um pouco e de forma sofisticada sobre o consumo de drogas. Surgiram Baudelaire, Hess e, por fim aquele que o encantava: Benjamim. Lembrou-se de uma cena tão triste, quanto surpreendente.
Era sábado. Ao se levantar foi ao cabeleireiro. Era cedo e para “matar” algum tempo e saciar a fome matinal, entrou naquele infecto bar de esquina. Ainda adormecido, comia vagarosa e tranquilamente.
Um leve toque no ombro o despertou. Ela era bonita, mas necessitava de alguns cuidados. Lembrou-se, rapidamente, de rostos de mulheres comuns, nos quais identificava as “rugas da renúncia”[2]. Renuncia da vida. Unhas sujas, cabelos desgrenhados, vestido tipo sári pedindo uma boa lavada. Pés calçando havaianas de cores diferentes gastas pelo uso mal cuidado. Olha para aquela figura a espera de uma palavra, de uma reação além daquele toque. O choque foi intenso ao ouvir a pergunta surpreendente na manhã e na situação: “V. não quer transar comigo?”.
Em outros momentos jamais dispensaria e tinha a certeza de que o convite partiria dele. Não se lembrava de ter deixado de tomar uma iniciativa dessas. Repara na figura e uma sensação, que ele não sabia distinguir, o dominou ao indagar: “Por que um convite desses logo cedo e aqui?!”. A resposta é rápida e bem precisa: “Estou sem dinheiro e tenho muita fome, não comi nada ontem e varei a noite acordada!”
Havia notado um rosto cansado, mas não atinara o que se passava naquela figura. Dispõe-se a pagar um café da manhã, chamando o garçom. Ela manifesta agradecimentos por meio de um leve e ligeiro sorrir, sem dizer palavra. A conversa se estabelece. Instala-se um convulsivo choro naquele rosto redondo tendendo para o cheio. E o choque torna-se maior quando ela mostra os braços e o colo cheio de pontos vermelhos enegrecidos. Ele sentindo-se como Ariel entre dois momentos de êxtase, a sordidez da situação e aquela chama caritativa em que se encontrava.
A noite reunira-se com amigos, ouvira música, tomara um pouco de tudo, nada comeram. Consumiram carreirinhas, surgiram condições para umas picadinhas. O torpor não a deixou dormir e a manhã chegou. Ali pelas quatro horas da manhã começou a dar-se conta do quadro de que estava participando. Um tanto descoordenada optou por uma retirada à francesa. Não se lembrou de onde havia deixado seus sapatos. Tampouco outros de seus pertences. Saiu à rua e o encontrou. De nada dispunha para obter a primeira refeição a não ser aquela oferta.
Ele, tenso, abatido, descrente esqueceu-se do cabeleireiro.
Guy Constance
Atenas, julho/1996
[1] BENJAMIN, W. Haxixe, São Paulo:Ed. Brasiliense, p. 17, 1984.
[2] BENJAMIN, W. Haxixe, São Paulo: Ed. Brasiliense, p. 23, 1984.
Para Débora, de quem não aceitei a partida, mas que
sempre me faz lembrar O homem do braço de ouro
(Frank Sinatra e Kim Novak)
e Haxixe (Walter Benjamim)
Estavam em férias. Divertia-se com uma querida amiga que acedeu a seu convite para passear uns dias pela Grécia para onde ele queria voltar. O calor era intenso. Passeios só eram possíveis depois das cinco da tarde. No quarto de hotel, ele lia e ela queimava seu bagulhinho. Especialista em teoria literária tirava proveito dos rudimentos que ele conhecia para discutir um pouco e de forma sofisticada sobre o consumo de drogas. Surgiram Baudelaire, Hess e, por fim aquele que o encantava: Benjamim. Lembrou-se de uma cena tão triste, quanto surpreendente.
Era sábado. Ao se levantar foi ao cabeleireiro. Era cedo e para “matar” algum tempo e saciar a fome matinal, entrou naquele infecto bar de esquina. Ainda adormecido, comia vagarosa e tranquilamente.
Um leve toque no ombro o despertou. Ela era bonita, mas necessitava de alguns cuidados. Lembrou-se, rapidamente, de rostos de mulheres comuns, nos quais identificava as “rugas da renúncia”[2]. Renuncia da vida. Unhas sujas, cabelos desgrenhados, vestido tipo sári pedindo uma boa lavada. Pés calçando havaianas de cores diferentes gastas pelo uso mal cuidado. Olha para aquela figura a espera de uma palavra, de uma reação além daquele toque. O choque foi intenso ao ouvir a pergunta surpreendente na manhã e na situação: “V. não quer transar comigo?”.
Em outros momentos jamais dispensaria e tinha a certeza de que o convite partiria dele. Não se lembrava de ter deixado de tomar uma iniciativa dessas. Repara na figura e uma sensação, que ele não sabia distinguir, o dominou ao indagar: “Por que um convite desses logo cedo e aqui?!”. A resposta é rápida e bem precisa: “Estou sem dinheiro e tenho muita fome, não comi nada ontem e varei a noite acordada!”
Havia notado um rosto cansado, mas não atinara o que se passava naquela figura. Dispõe-se a pagar um café da manhã, chamando o garçom. Ela manifesta agradecimentos por meio de um leve e ligeiro sorrir, sem dizer palavra. A conversa se estabelece. Instala-se um convulsivo choro naquele rosto redondo tendendo para o cheio. E o choque torna-se maior quando ela mostra os braços e o colo cheio de pontos vermelhos enegrecidos. Ele sentindo-se como Ariel entre dois momentos de êxtase, a sordidez da situação e aquela chama caritativa em que se encontrava.
A noite reunira-se com amigos, ouvira música, tomara um pouco de tudo, nada comeram. Consumiram carreirinhas, surgiram condições para umas picadinhas. O torpor não a deixou dormir e a manhã chegou. Ali pelas quatro horas da manhã começou a dar-se conta do quadro de que estava participando. Um tanto descoordenada optou por uma retirada à francesa. Não se lembrou de onde havia deixado seus sapatos. Tampouco outros de seus pertences. Saiu à rua e o encontrou. De nada dispunha para obter a primeira refeição a não ser aquela oferta.
Ele, tenso, abatido, descrente esqueceu-se do cabeleireiro.
Guy Constance
Atenas, julho/1996
[1] BENJAMIN, W. Haxixe, São Paulo:Ed. Brasiliense, p. 17, 1984.
[2] BENJAMIN, W. Haxixe, São Paulo: Ed. Brasiliense, p. 23, 1984.
NENHUMA PALAVRA
Ah, leva a solidão de mim
Tira esse amor dos olhos meus
Tira a tristeza ruim do adeus
Que ficou em mim
Que não sai de mim
Pelo amor de Deus
(Francis Hime/Vinicius de Moraes)
Sexta feira, fim de dia.
O dia pesado, tenso e denso. Por isso a quase alegria por algo que finda:
“Au revoir à tous”, para alguns.
“Bye, bye. Have a nice week end”, para outros.
Pode parecer pedantismo, mas o grupo, composto por pessoas de vários países, tornava necessário tal melting pot. Além do dia estafante, muitos procuravam a célebre hora do pot au vin do fim do expediente.
A sensação de fim de dia, de tarefa concluída, para Túlio não tinha a mesma conotação. Mesmo assim foi com os demais professores e pesquisadores, até o Café du Coin, onde todos falavam muito e mais alto que seus contidos hábitos.
A primeira taça foi sorvida com um prazer maior que o esperado. Aquela brasileira tentando se fazer entender ao empregar termos rosianos, escondidos do linguajar corriqueiro até mesmo de grande parte dos mineiros e, quem sabe, de outros tantos literatos. Importava, era sexta feira, impressionar o americano que se interessava pelo escritor. Um fim de semana diferente seria mais agradável que os ouvidos entediados dos companheiros. A jovem física japonesa, em um inglês totalmente incompreensível, queria saber ─ por duvidar ser possível ─ do francês adepto dos estudos de Prigogine e Stangher, como transportar conceitos de termodinâmica para a filosofia.
Pode parecer pouco correto, política e cientificamente, mas uma onda de insatisfação crescia dentro de Túlio que se perguntava interiormente:
“Por que aceitei estar aqui?!”
A francesa estrábica dirigia-lhe a palavra procurando obter maiores e melhores informações sobre o Brasil para onde iria brevemente. Túlio, procurando guardar sua fama de paciente e de profundo conhecedor de coisas de seu país, quase como um autômato, respondia ao que lhe era indagado. Seu imaginário, ainda que sem grande entusiasmo, fazia uma “viagem pelas pernas de Annette”, lembrou-se dos “seios de Duília”, personagem de Aníbal Machado. Também, quem mandava procurar ser fiel! Sua Telma estava longe somente em distância, por isso mesmo deveria ser preservada de quaisquer aventuras, ainda que rápidas e sem compromisso. As pernas roliças, curtas e bem torneadas, escondidas dentro de necessárias meias a guardá-las do frio lá de fora, eram um par fértil para muita imaginação e ação já insinuada anteriormente. Quem mandara fazer aquele acerto!
Nem por isso seu ânimo melhorou. Aquela falta, ou melhor, aquela distância. Ou ainda, aquela ausência, pesava-lhe profundamente. Os sons em volta tornaram-se ruídos. Aqueles podem ser harmônicos, estes sempre desarticulados. A confusão de desejos — permanecer, ir para outro lugar e, ao mesmo tempo, não se mover da cadeira, única coisa confortável ali.
Ah, leva a solidão de mim
Tira esse amor dos olhos meus
Tira a tristeza ruim do adeus
Que ficou em mim
Que não sai de mim
Pelo amor de Deus
(Francis Hime/Vinicius de Moraes)
Sexta feira, fim de dia.
O dia pesado, tenso e denso. Por isso a quase alegria por algo que finda:
“Au revoir à tous”, para alguns.
“Bye, bye. Have a nice week end”, para outros.
Pode parecer pedantismo, mas o grupo, composto por pessoas de vários países, tornava necessário tal melting pot. Além do dia estafante, muitos procuravam a célebre hora do pot au vin do fim do expediente.
A sensação de fim de dia, de tarefa concluída, para Túlio não tinha a mesma conotação. Mesmo assim foi com os demais professores e pesquisadores, até o Café du Coin, onde todos falavam muito e mais alto que seus contidos hábitos.
A primeira taça foi sorvida com um prazer maior que o esperado. Aquela brasileira tentando se fazer entender ao empregar termos rosianos, escondidos do linguajar corriqueiro até mesmo de grande parte dos mineiros e, quem sabe, de outros tantos literatos. Importava, era sexta feira, impressionar o americano que se interessava pelo escritor. Um fim de semana diferente seria mais agradável que os ouvidos entediados dos companheiros. A jovem física japonesa, em um inglês totalmente incompreensível, queria saber ─ por duvidar ser possível ─ do francês adepto dos estudos de Prigogine e Stangher, como transportar conceitos de termodinâmica para a filosofia.
Pode parecer pouco correto, política e cientificamente, mas uma onda de insatisfação crescia dentro de Túlio que se perguntava interiormente:
“Por que aceitei estar aqui?!”
A francesa estrábica dirigia-lhe a palavra procurando obter maiores e melhores informações sobre o Brasil para onde iria brevemente. Túlio, procurando guardar sua fama de paciente e de profundo conhecedor de coisas de seu país, quase como um autômato, respondia ao que lhe era indagado. Seu imaginário, ainda que sem grande entusiasmo, fazia uma “viagem pelas pernas de Annette”, lembrou-se dos “seios de Duília”, personagem de Aníbal Machado. Também, quem mandava procurar ser fiel! Sua Telma estava longe somente em distância, por isso mesmo deveria ser preservada de quaisquer aventuras, ainda que rápidas e sem compromisso. As pernas roliças, curtas e bem torneadas, escondidas dentro de necessárias meias a guardá-las do frio lá de fora, eram um par fértil para muita imaginação e ação já insinuada anteriormente. Quem mandara fazer aquele acerto!
Nem por isso seu ânimo melhorou. Aquela falta, ou melhor, aquela distância. Ou ainda, aquela ausência, pesava-lhe profundamente. Os sons em volta tornaram-se ruídos. Aqueles podem ser harmônicos, estes sempre desarticulados. A confusão de desejos — permanecer, ir para outro lugar e, ao mesmo tempo, não se mover da cadeira, única coisa confortável ali.
O lugar de cada coisa
Você precisa arrumar uma moça para casar
Mas mãe
Precisa aprender a se comportar, ter respeito e responsabilidade, virar homem
Sabe o que é?, mãe
Eu não vou poder cuidar de você toda a vida
Eu sei
Quem vai cuidar de você quando eu morrer?
Quem?
Veja aquela mocinha que vem vindo ali
A magrela?
Moçona
Ela aperta o olho
Deve ser míope, o que não chega a ser defeito
Tem nariz empinado
E?
Nada, só que ela aperta demais o olho.
Para com isso, menino. Dá um sorriso, faz amizade, chama atenção
...
Você viu o que fez? Assustou a moça
Ela que se assustou por conta própria
Que coisa feia
Mas mãe
Isso não se faz
Era prá ela me ver
Não se tira o pinto para fora da calça no meio da rua
Se ela assustou é porque não devia servir
Vamos procurar outra
Vamos. Procurar outra
Mas primeiro amolece esse pinto e guarda no lugarzinho dele, dentro da cueca
Ah! Mãe
É esse o lugar dele
Mas ele gosta de ar frio. Acho que o lugar dele é do lado de fora
...
Mãe
O que é?
Viu como ela correu?
E você ainda acha graça?
Garanto que ela nunca viu nenhum assim
E para onde ela foi?
Entrou no restaurante, acho que lhe abriu o apetite
Não fala bobagem
Olha lá, vem vindo outra. Posso por prá fora outra vez? Deixa, por favor, deixa
Você precisa arrumar uma moça para casar
Mas mãe
Precisa aprender a se comportar, ter respeito e responsabilidade, virar homem
Sabe o que é?, mãe
Eu não vou poder cuidar de você toda a vida
Eu sei
Quem vai cuidar de você quando eu morrer?
Quem?
Veja aquela mocinha que vem vindo ali
A magrela?
Moçona
Ela aperta o olho
Deve ser míope, o que não chega a ser defeito
Tem nariz empinado
E?
Nada, só que ela aperta demais o olho.
Para com isso, menino. Dá um sorriso, faz amizade, chama atenção
...
Você viu o que fez? Assustou a moça
Ela que se assustou por conta própria
Que coisa feia
Mas mãe
Isso não se faz
Era prá ela me ver
Não se tira o pinto para fora da calça no meio da rua
Se ela assustou é porque não devia servir
Vamos procurar outra
Vamos. Procurar outra
Mas primeiro amolece esse pinto e guarda no lugarzinho dele, dentro da cueca
Ah! Mãe
É esse o lugar dele
Mas ele gosta de ar frio. Acho que o lugar dele é do lado de fora
...
Mãe
O que é?
Viu como ela correu?
E você ainda acha graça?
Garanto que ela nunca viu nenhum assim
E para onde ela foi?
Entrou no restaurante, acho que lhe abriu o apetite
Não fala bobagem
Olha lá, vem vindo outra. Posso por prá fora outra vez? Deixa, por favor, deixa
Fome
“Tenho fome”, gritou, com sua voz de gorda, a loira mulher refestelada no sofá diante da televisão. A empregada, passando para retirar a roupa suja e o lixo dos banheiros, balançou a cabeça em desaprovação sem nada dizer.
“Ai de mim, tenho fome”, continuou gemendo a gorda. Com o canto do olho, ela seguia as idas e vindas da empregada com seus baldes, esfregões e vassouras, caixas e cestos, aspiradores e enceradeiras, espanadores, paninhos e infinitos produtos de limpeza. Acompanhava com interesse o agacha e esfrega, o espreme e torce, o sobe e desce e o estica e encolhe da empregada, enquanto a televisão consumia energia inutilmente.
“A geladeira está cheia, senhora...”, falou boccachiusa a serviçal, pensando apenas em sua própria geladeira quebrada e vazia.
“Você é uma egoísta”, gritou a gorda revoltada. “Só porque é magra pensa... pensa... Você pensa?”
Antes de responder à gorda patroa a empregada saiu correndo para a cozinha e foi responder ao apito mais urgente da chaleira sobre o fogão.
“Ah! Deus, quanta injustiça. Como é possível ela comer tanto e continuar magrinha assim? Enquanto eu...”, sem conseguir terminar a frase a patroa caiu num choro descontrolado.
Ah! Deus, quanta injustiça, pensou a empregada. Além da chaleira, do fogão, do forninho e do microondas, além da máquina de lavar, de secar e de todos os outros eletrodomésticos apitantes nessa casa, ainda preciso agüentar o gordo apito dessa traquéia apocalíptica, inerte no sofá, deglutindo pipocas e prenunciando o fim do mundo entre suas dobrinhas adiposas?
Sim, era culta a empregada. Era magra. Era linda. Mas, acima de tudo, era boa. Acostumada a socorrer apitos, correu de volta à cozinha, raspou uma cenoura, apanhou a caixa de lenços de papel e veio consolar a patroa.
“Obrigada, você é boa, mas está despedida mesmo assim.” Disse sem dó, em meio aos soluços, a gorda exaltada.
“Senhora... meus filhos...”
“Sinto muito. Termine os banheiros, arrume suas coisas e rua. Eu sou boa, mas, infelizmente, você é magra demais para o trabalho”.
A empregada prometeu engordar caso a patroa tivesse a bondade de lhe fornecer ao menos uma refeição diária. “Eu também tenho fome, senhora.”
“E eu com a sua fome? Chega!” Encerrou a conversa a patroa. “E antes de ir embora, traga o pote de marshmallow, pois é impossível engolir essa droga de cenoura a seco.”
“Tenho fome”, gritou, com sua voz de gorda, a loira mulher refestelada no sofá diante da televisão. A empregada, passando para retirar a roupa suja e o lixo dos banheiros, balançou a cabeça em desaprovação sem nada dizer.
“Ai de mim, tenho fome”, continuou gemendo a gorda. Com o canto do olho, ela seguia as idas e vindas da empregada com seus baldes, esfregões e vassouras, caixas e cestos, aspiradores e enceradeiras, espanadores, paninhos e infinitos produtos de limpeza. Acompanhava com interesse o agacha e esfrega, o espreme e torce, o sobe e desce e o estica e encolhe da empregada, enquanto a televisão consumia energia inutilmente.
“A geladeira está cheia, senhora...”, falou boccachiusa a serviçal, pensando apenas em sua própria geladeira quebrada e vazia.
“Você é uma egoísta”, gritou a gorda revoltada. “Só porque é magra pensa... pensa... Você pensa?”
Antes de responder à gorda patroa a empregada saiu correndo para a cozinha e foi responder ao apito mais urgente da chaleira sobre o fogão.
“Ah! Deus, quanta injustiça. Como é possível ela comer tanto e continuar magrinha assim? Enquanto eu...”, sem conseguir terminar a frase a patroa caiu num choro descontrolado.
Ah! Deus, quanta injustiça, pensou a empregada. Além da chaleira, do fogão, do forninho e do microondas, além da máquina de lavar, de secar e de todos os outros eletrodomésticos apitantes nessa casa, ainda preciso agüentar o gordo apito dessa traquéia apocalíptica, inerte no sofá, deglutindo pipocas e prenunciando o fim do mundo entre suas dobrinhas adiposas?
Sim, era culta a empregada. Era magra. Era linda. Mas, acima de tudo, era boa. Acostumada a socorrer apitos, correu de volta à cozinha, raspou uma cenoura, apanhou a caixa de lenços de papel e veio consolar a patroa.
“Obrigada, você é boa, mas está despedida mesmo assim.” Disse sem dó, em meio aos soluços, a gorda exaltada.
“Senhora... meus filhos...”
“Sinto muito. Termine os banheiros, arrume suas coisas e rua. Eu sou boa, mas, infelizmente, você é magra demais para o trabalho”.
A empregada prometeu engordar caso a patroa tivesse a bondade de lhe fornecer ao menos uma refeição diária. “Eu também tenho fome, senhora.”
“E eu com a sua fome? Chega!” Encerrou a conversa a patroa. “E antes de ir embora, traga o pote de marshmallow, pois é impossível engolir essa droga de cenoura a seco.”
A BIBLIOTECÁRIA E SUA FAXINEIRA DESCUIDADA
As armas e os barões assinalados sempre assinalaram, lá em cima, a prateleira de literatura portuguesa; enquanto, a meio do caminho de nossa vida, na altura dos olhos, ficavam os italianos.
Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte. Mas, antigamente, me desculpe, lembro bem, ficava só no rodapé que hoje se encontra preenchido de italianos e até de portugueses. Esses gerais são sem tamanho.
Como lá fui parar dizer não sei; tão tolhido de sono me encontrava que a verdadeira via abandonei. Vim sem escolha, mas aqui, com sede e sozinho, cheguei. Paraíso e Purgatório perdi nesse meio do caminho e só ouço falar de homens que desconheço: Reinaldo e Riobaldo, Zé Bebelo, Joca Ramiro, Titão Passos... e Diadorim. Isso lá é nome de homem?
Estavas, linda Inês, posta em sossego. Sim, estavas. Mas agora perdeste o sossego com essa gritaria desmedida. Quem poderia ser? Italiano, claro. Que fazes, pois, cá? Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito, silencie a matraca e retorne à tua prateleira se me faz o favor.
Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Uivei.
E que isso também lhe sirva ao senhor de baixo que veio ter cá em cima. Homem ou mulher, pare de uivar, pois.
Olhei para o alto e vi a sua vertente vestida já dos raios do planeta que certo guia por toda estrada a gente. Como não guiar a mão dessa empregada que, a toda e cada vez que o pó nos vem tirar, deixa-nos desemparelhados e perdidos nas prateleiras.
Ah! Gritaram os três em coro latino: a bibliotecária chegou! Estamos salvos.
Aqui a estória se acabou.
Aqui a estória acabada.
Aqui a estória acaba.
As armas e os barões assinalados sempre assinalaram, lá em cima, a prateleira de literatura portuguesa; enquanto, a meio do caminho de nossa vida, na altura dos olhos, ficavam os italianos.
Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte. Mas, antigamente, me desculpe, lembro bem, ficava só no rodapé que hoje se encontra preenchido de italianos e até de portugueses. Esses gerais são sem tamanho.
Como lá fui parar dizer não sei; tão tolhido de sono me encontrava que a verdadeira via abandonei. Vim sem escolha, mas aqui, com sede e sozinho, cheguei. Paraíso e Purgatório perdi nesse meio do caminho e só ouço falar de homens que desconheço: Reinaldo e Riobaldo, Zé Bebelo, Joca Ramiro, Titão Passos... e Diadorim. Isso lá é nome de homem?
Estavas, linda Inês, posta em sossego. Sim, estavas. Mas agora perdeste o sossego com essa gritaria desmedida. Quem poderia ser? Italiano, claro. Que fazes, pois, cá? Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito, silencie a matraca e retorne à tua prateleira se me faz o favor.
Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Uivei.
E que isso também lhe sirva ao senhor de baixo que veio ter cá em cima. Homem ou mulher, pare de uivar, pois.
Olhei para o alto e vi a sua vertente vestida já dos raios do planeta que certo guia por toda estrada a gente. Como não guiar a mão dessa empregada que, a toda e cada vez que o pó nos vem tirar, deixa-nos desemparelhados e perdidos nas prateleiras.
Ah! Gritaram os três em coro latino: a bibliotecária chegou! Estamos salvos.
Aqui a estória se acabou.
Aqui a estória acabada.
Aqui a estória acaba.
Balas de menta
Ao voltar sozinho para casa, a boca cheia de balas de menta, pensou com tristeza em seu pai.
E quando ele, finalmente, a beijou, percebeu que ela tinha saliva grossa e gosmenta. Talvez a boca seca de muito esperar... Caiu do galho, apodreceu, passou do tempo. Quis tirar rapidamente a língua, mas ela, afoita, prendeu-a com dentes que não tinham a lisura de um esmalte recém-escovado, mas restos de casca de milho presos na grossura do limo indicavam tempos de líquido represado, estagnado. O gosto era de avó, velha e estragada... avó morta. Pensou que poderia suportar por mais alguns segundos, mas quando o movimento frenético daqueles lábios despejou uma repentina e surpreendente quantidade de saliva quente e pegajosa dentro de sua boca não resistiu e retirou rapidamente a cabeça para trás deixando-a de boca aberta, língua escancarada para fora, olhos fechados e um restinho de cuspe escorrendo e grudando esfiapado pelo queixo.
Foi só pouco depois da metade do filme que ele conseguiu criar coragem e colocou a mão dela entre as suas, apertando-a com força. Ela não resistiu, pelo contrário, apertou também. Os dedos, nervosamente contraídos, enroscavam-se uns nos outros e, a seguir, deixavam-se alongar e acariciar suavemente, quase adormecidos, para, pouco depois, crisparem-se novamente. Aproveitando-se desse momento ele esticou o braço e passou-o por cima dos ombros dela, aconchegando-a de encontro ao seu peito. Acho que ela está gostando, pensou. O próximo passo, se tudo der certo, será o beijo. Devia ter comprado bala de menta.
O cinema não estava cheio, mas mesmo assim ele indicou para que se sentassem na última fileira. Ela concordou com um sorriso tímido, chacoalhando, feliz, o saquinho de pipocas para misturar bem o sal. As luzes se apagaram e na primeira vez que seu cotovelo tocou gentilmente o dela, parecia que disputavam a posse do braço da poltrona, ela cedeu e retirou o braço, com medo de incomodar. Na segunda vez ela não se moveu... e ele parou de insistir, apenas deixou-se ficar encostado, o braço formigando, no toque do cotovelo. Mexeu bem devagarzinho.
Há meses criando coragem para fazer o convite, ele mal podia acreditar que ela havia aceitado e, agora, estavam ali, na fila do cinema. Filme de amor, claro, escolhido por ela que ele, prontamente, aceitou. Nem pensou, aliás, em questionar, pois era o que menos importava. Poucas pessoas, ainda bem. Você quer bala de menta?, perguntou cheio de intenções. Acho que prefiro pipoca, ela respondeu quase sorrindo. E hortelã?, insistiu. Pipoca, ela encerrou a questão. E agora, pai? Não ousou desobedecê-la. Pipoca,só pipoca.
Lembrou-se, no caminho, dos conselhos do seu falecido pai: Ao levar uma garota pela primeira vez ao cinema sempre compre balas de menta porque homem que é homem não sai de um cinema sem roubar um beijo na boca, é questão de honra, é medalha no peito. Olhou para a garota ao seu lado, estava apaixonado, seu primeiro amor. Disse o nome da rua ao motorista do táxi e jurou ao seu pai em pensamentos que hoje, finalmente, daria seu primeiro beijo na boca.
Ao voltar sozinho para casa, a boca cheia de balas de menta, pensou com tristeza em seu pai.
E quando ele, finalmente, a beijou, percebeu que ela tinha saliva grossa e gosmenta. Talvez a boca seca de muito esperar... Caiu do galho, apodreceu, passou do tempo. Quis tirar rapidamente a língua, mas ela, afoita, prendeu-a com dentes que não tinham a lisura de um esmalte recém-escovado, mas restos de casca de milho presos na grossura do limo indicavam tempos de líquido represado, estagnado. O gosto era de avó, velha e estragada... avó morta. Pensou que poderia suportar por mais alguns segundos, mas quando o movimento frenético daqueles lábios despejou uma repentina e surpreendente quantidade de saliva quente e pegajosa dentro de sua boca não resistiu e retirou rapidamente a cabeça para trás deixando-a de boca aberta, língua escancarada para fora, olhos fechados e um restinho de cuspe escorrendo e grudando esfiapado pelo queixo.
Foi só pouco depois da metade do filme que ele conseguiu criar coragem e colocou a mão dela entre as suas, apertando-a com força. Ela não resistiu, pelo contrário, apertou também. Os dedos, nervosamente contraídos, enroscavam-se uns nos outros e, a seguir, deixavam-se alongar e acariciar suavemente, quase adormecidos, para, pouco depois, crisparem-se novamente. Aproveitando-se desse momento ele esticou o braço e passou-o por cima dos ombros dela, aconchegando-a de encontro ao seu peito. Acho que ela está gostando, pensou. O próximo passo, se tudo der certo, será o beijo. Devia ter comprado bala de menta.
O cinema não estava cheio, mas mesmo assim ele indicou para que se sentassem na última fileira. Ela concordou com um sorriso tímido, chacoalhando, feliz, o saquinho de pipocas para misturar bem o sal. As luzes se apagaram e na primeira vez que seu cotovelo tocou gentilmente o dela, parecia que disputavam a posse do braço da poltrona, ela cedeu e retirou o braço, com medo de incomodar. Na segunda vez ela não se moveu... e ele parou de insistir, apenas deixou-se ficar encostado, o braço formigando, no toque do cotovelo. Mexeu bem devagarzinho.
Há meses criando coragem para fazer o convite, ele mal podia acreditar que ela havia aceitado e, agora, estavam ali, na fila do cinema. Filme de amor, claro, escolhido por ela que ele, prontamente, aceitou. Nem pensou, aliás, em questionar, pois era o que menos importava. Poucas pessoas, ainda bem. Você quer bala de menta?, perguntou cheio de intenções. Acho que prefiro pipoca, ela respondeu quase sorrindo. E hortelã?, insistiu. Pipoca, ela encerrou a questão. E agora, pai? Não ousou desobedecê-la. Pipoca,só pipoca.
Lembrou-se, no caminho, dos conselhos do seu falecido pai: Ao levar uma garota pela primeira vez ao cinema sempre compre balas de menta porque homem que é homem não sai de um cinema sem roubar um beijo na boca, é questão de honra, é medalha no peito. Olhou para a garota ao seu lado, estava apaixonado, seu primeiro amor. Disse o nome da rua ao motorista do táxi e jurou ao seu pai em pensamentos que hoje, finalmente, daria seu primeiro beijo na boca.
RODODENDRO
A casa estava quase pronta: mobília comprada, lustres instalados, cortinas e tapetes escolhidos. Era hora de pensar no jardim, dissera o paisagista à mulher, agendando uma visita ao fornecedor de plantas e flores.
Seis horas da manhã: o paisagista falava e a mulher quase dormia. “Este é o Rhododendro indicum, tem ramos, pecíolos, nervuras e cálices revestidos de pelos sedosos e flores curto-pediceladas”.
Em meio ao arbusto rosa claro, uma figura humana agachada, movimentando-se com dificuldade, chamou a atenção da mulher. Ela se aproximou. Era uma velha japonesa, com a saia enrolada e presa entre as pernas que, de cócoras espetava a terra com uma pazinha quebrando seus torrões e deixando-os cair de novo no mesmo lugar.
A mulher sorriu.
“Azaréia”, disse a velha.
“Existem mais de 900 variedades hortícolas...”, continuava o paisagista.
“Azaréia”, insistiu a velha. “Toshiro parantô quando chegô no Baragiro.”
“O rododendro é vulgarmente conhecido por azálea...”
“Azaréia!”
“Eu não desgosto pessoalmente, mas é uma flor que está fora de moda...”
“Toshiro moreu.”
“Ainda mais cor-de-rosa.” Sorriu com ironia o paisagista.
“Losa.” Sorriu com sinceridade a velha e continuou cutucando a terra.
Seguiram, assim, cada uma o seu caminho. Mas na festa de inauguração da casa, sem nenhuma azálea rosa, a mulher chorou.
A casa estava quase pronta: mobília comprada, lustres instalados, cortinas e tapetes escolhidos. Era hora de pensar no jardim, dissera o paisagista à mulher, agendando uma visita ao fornecedor de plantas e flores.
Seis horas da manhã: o paisagista falava e a mulher quase dormia. “Este é o Rhododendro indicum, tem ramos, pecíolos, nervuras e cálices revestidos de pelos sedosos e flores curto-pediceladas”.
Em meio ao arbusto rosa claro, uma figura humana agachada, movimentando-se com dificuldade, chamou a atenção da mulher. Ela se aproximou. Era uma velha japonesa, com a saia enrolada e presa entre as pernas que, de cócoras espetava a terra com uma pazinha quebrando seus torrões e deixando-os cair de novo no mesmo lugar.
A mulher sorriu.
“Azaréia”, disse a velha.
“Existem mais de 900 variedades hortícolas...”, continuava o paisagista.
“Azaréia”, insistiu a velha. “Toshiro parantô quando chegô no Baragiro.”
“O rododendro é vulgarmente conhecido por azálea...”
“Azaréia!”
“Eu não desgosto pessoalmente, mas é uma flor que está fora de moda...”
“Toshiro moreu.”
“Ainda mais cor-de-rosa.” Sorriu com ironia o paisagista.
“Losa.” Sorriu com sinceridade a velha e continuou cutucando a terra.
Seguiram, assim, cada uma o seu caminho. Mas na festa de inauguração da casa, sem nenhuma azálea rosa, a mulher chorou.

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